Sábado, 27 October 2012 17:19

Sandy

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Em 1998, troquei minha máquina de costura pela minha cachorrinha Sandy. Na verdade, não foi bem ela que escolhi. Havia uma ninhada de poodles, e, como todo mundo, eu queria a menor e mais branquinha.  Chegando ao local da ninhada da costureira eu logo corri e peguei a menor e mais branquinha de todas. Imaginem... Aquela meio marronzinha, magrela, a maior da ninhada que pulava feita louca em cima de mim, não tinha a mínima chance de ser escolhida.

Era um dia de sol e tinha ido até lá com uma amiga. Na volta, ela dirigindo e eu com aquele filhotinho branco no colo, quietinho que mal reagia às minhas investidas na tentativa de brincar.

Foi quando minha amiga disse:

- Você teria que ter ficado com a “feinha” porque ela gostou de você!

Mas é assim que nós humanos somos. Nunca damos valor para quem na verdade gosta da gente. Mas, na mesma hora disse:

- De meia volta. Você tem razão. Vamos buscar a outra e devolver esta.

Creio que em 43 anos de vida, esta tenha sido a melhor decisão que já tomei e não me envergonho de dizer isso.

Em 15 anos de convivência comigo e com meus filhos, a Sandy acompanhou todas as fases da minha vida e da minha família e se tornou a coisa mais importante de nossas vidas e principalmente da minha, pois só quem tem um cachorro sabe do que estou falando.

Nestes 15 anos de convivência, a Sandy me acompanhou em várias mudanças. Mudanças de residência, de estado, de estado de espírito, da minha separação depois de 15 anos de casamento, da morte de minha mãe, sobrinho, tios, primos. Participou da criação dos meus filhos que tinham 2 e 3 anos quando ela chegou. Ela sabia o nome de todos da família. Acho que a Sandy conhecia 80% do vocabulário dos humanos. Ela simplesmente só não falava. Nós a apelidamos de Pinóquio, aquele boneco que sonhava em ser menino. Eu acho que a Sandy achava que era uma menina de verdade.

A Sandy foi minha companheira nos momentos mais felizes e tristes de minha vida. E ela sabia. Ah!  A Sandy me conhecia como ninguém se deu o trabalho de tentar conhecer. E infelizmente até hoje ela foi a única que me conheceu sim! Sem medos, pudores, sem nada. Eu na forma mais crua desta palavra.

Quando em 2009, meu filho foi morar com o pai em Belo Horizonte, a Sandy adoeceu e apesar de todo meu esforço, ninguém descobriu o que ela tinha. Eu sei o que a Sandy tinha. Ela tinha saudades do meu filho. No fundo eu sabia e não fiz nada.  A Sandy faleceu um dia antes de o meu filho chegar para visitá-la. Tenho certeza que foi assim porque ela estava com uma pata deformada da doença e não queria que meu filho a visse deste jeito. Na verdade, ela sabia tanto quanto eu, que meu filho tem dificuldades de lidar com a morte desde que minha mãe, sua avó faleceu.

Mas não pensem vocês que a Sandy me deixou sozinha, sem ninguém para me acompanhar nesta jornada. Em seus últimos meses de vida, ela trouxe a mim, numa última tentativa de me ver feliz, depois de tanto me ver chorar, o amor da minha vida. Que foi o veterinário que cuidou dela em seus últimos instantes de vida. Hoje ele é meu companheiro na jornada maluca da vida. Este foi seu último presente pra mim. Se ela acertou no presente? Não sei. Só a vida dirá. De apenas uma coisa eu tenho certeza: Amarei a Sandy eternamente e sei que ainda vamos estar juntas em outras vidas.  

História enviada pela ouvinte
Mônica Neves Fittipaldi

Advogada - Pós Graduada em Direito Civil e Processo Civil
Especialização em Direito Criminal

 

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