Sexta, 14 June 2013 04:15

A História de Kyara

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Esta carta é uma oportunidade de homenagear a vira-latinha da minha vida.

Eu a conheci no Guarujá, quando fui fazer uma visitinha ao CCZ da cidade. Ela estava triste, dentro de uma baia com centenas de outros animais. Eu fui ao local disposta a adotar um cachorrinho para a minha filha. Cheguei lá e nem reparei na Kyara, que até então não tinha nome.

Escolhi um outro, que estava no fundo do canil, quietinho. E a Kyara ficava na tela, me puxando com a patinha, enquanto eu perguntava para o tratador sobre o outro cachorrinho que eu tinha escolhido.

Mas esse cachorrinho, segundo ele, estava em observação, porque não lhe parecia saudável. Portanto, ele não poderia ainda ser doado. E a Kyara, desesperada, me cutucava e chorava sem eu, atordoada com tantos animais abandonados, me dar conta de seu desespero.

Até que um gesto dela me chamou a atenção. Foi quando parou de me cutucar e sentou-se desolada no canto da baia, como que desistindo da investida. E o tratador me falou: “Por que você não leva essa? Já está aqui há três meses, seus filhotes foram todos doados, e a gente já ofereceu ela para tanta gente, mas ninguém ainda quis levá-la. A gente se apegou a ela, já era para ter sido sacrificada, estamos adiando porque ainda acreditamos que ela vai achar um lar”. 

E foi aí que meus olhos cruzaram os dela e eu me apaixonei pelo seu olhar doce. 

Quando a levei, o tratador se despediu dela com lágrimas nos olhos e disse: “Vá, vai ser feliz!” E eu saí de lá com a Kyara nos braços, cheia de carrapatos, magérrima e cheirando a creolina, para uma nova vida. 

Isso foi ha 12 anos. Já passaram por minha vida, de lá para cá, mais de 30 cães abandonados, que foram resgatados e doados. A Kyara foi quem deu o start. Alguns ficaram comigo, mas não como a Kyara, que era minha companheira fiel, alegrava minha vida, e conquistou, não só a gente como quem a conheceu, com sua doçura e inteligência. 

Hoje faz três meses que a Kyara deixou um enorme vazio em minha vida. Ela se foi por um ataque do coração. Foi rápido, mas deu tempo de me despedir. Não sofreu, não ficou internada, não deu trabalho. Ela se foi da forma mais calma e branda que um ser vivo merecedor é capaz de ir embora desta Terra. 

 

Eu conheço muitos animais e posso dizer que a Kyara foi um desses cães especiais que parecem ser dotados de uma alta sensibilidade e uma inteligência sutil. Ela sabia que eu era para ser dela desde que me viu. Sim, porque nessa história, a adotada fui eu. 

E hoje, olho em cada animalzinho que encontro por aí se não seria a Kyara de novo, voltando num outro corpinho para a minha vida, porque, se isso tiver que acontecer, com certeza, ela é que vai saber como me mostrar.

 

Suely Meng Gonçalves

 

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