Sexta, 14 June 2013 04:37

A História de Tota

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A minha gata vira-latas "pede" sempre para que todas as portas fiquem abertas dentro de casa. Ela é suave e incansavelmente persistente nesse objetivo.

Só na porta do banheiro ela não fica miando baixinho e insistentemente durante hooooooooooooooooras se a porta estiver trancada.

Ela não usa como brinquedo nada que não seja dela, mesmo que eu insista.

Ela tem preferência sempre pela ração mais barata. Ela não come carne, nem filé mignon.

Ela tolera apertos e amassos 'carinhosos' de todos com uma cara de “ok, você precisa disso agora, tá bom, eu posso esperar”. E ainda ronrona se sentir que a coisa tá feia.

E, várias vezes, chega de mansinho, se roça nas pernas de todos e deita aos nossos pés. Volta e meia dá uma lambidinha sutil. E brinca pra caramba, muito, sozinha inclusive e principalmente, apesar de ter 8 anos - ela tem a alma de um filhote e a sabedoria de um monge.

Ela vem para junto da cama e só fica aos meus pés, mesmo que eu insista veementemente que ela "suba" e fique pelo menos no meio, não no centro, da cama.

Ela dorme encostada na gente. Sempre. Jamais em cima sufocando, jamais nos acorda na madruga, nem hora nenhuma.

Quando ela teve a primeira cria, ela subiu no meu colo, sentou e a bolsa dela estourou. Ela teve os primeiros cinco filhotes e eu não ajudei em nada porque não sabia o que fazer, mas dei a maior força, na maior animação!

Ela deu conta de tudo, isso eu sabia, mas ela me surpreendeu: Enquanto paria o quarto, o primeiro já tava mamando. O último, claro, demorou mais. Todos mamavam enquanto o último saía, e eram limpos por ela com a língua. 

Ela alertou minha avó quando a moça que estava trabalhando aqui em casa não aguentou a tentação, veio pro meu quarto na madruga e mergulhou metade do corpo no meu armário de bugigangas em busca de um tesouro perdido.

Mas ela, a minha gata, não tem bijuteria, não brinca com bijuteria e não tem raiva quem o faz. Aliás, ela não precisa de nada disso, nem de roupa, nem de nada - ela nasceu completa e o 'povo' dela nunca achou diferente disso, nem com relação à botas. Bom, pelo menos as minhas botas ela nunca nem tentou experimentar. 

A 'minha' gata foi abandonada por nós durante uns dois dias, numa mudança que fizemos e que a queriam deixar pra trás. Quando eu, “tão legal e maravilhosa”, fui buscá-la, após a casa ter sido esvaziada e eu ter tido a graaaaaaaande, imeeeensa atitude básica de quem não é monstruoso de ir buscá-la, ela estava sentada na varanda, esperando.

Mas essa mesma gata rosna de ciúmes se outro gato ou gata quer vir morar conosco.

Essa mesma gata matava os calangos da casa com requintes de crueldade e ainda trazia o corpo.

Essa mesma gata não deixava que os próprios 'namorados' comessem a ração dela ou entrassem na casa. Namoro era no quintal, de preferência com dois de uma vez, e se eles quisessem chegar pra ficar, ela botava na rua. Mas continuava a 'amizade'.

Ela foi castrada. Foi levada por nós para um lugar estranho para ela, e lá “abandonada” por nós. Tomou uma espetada de agulha que deve ter doído e apagou. Acordou já com a barriguinha costurada. Fomos buscá-la. Ela tentava arrancar os pontos. Mas nunca nos 'questionou' com nenhum tipo de mordida, afastamento ou coisa que o valha.

Ela, ainda grogue, se enfiou entre o colchão e o estribo da cama, e apagou. Todos chamaram, desceram pra procurar, acharam que ela tinha fugido. Eu não estava em casa.

Quando disseram que tinham uma notícia, que era para eu ficar calma. Surtei e gritei: Tota! Dei um berro histérico tão alto quanto uma cantora exibida pode dar tota, totaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!

E ela apareceu.

A Tota foi um dos seres mais importantes que passaram na minha vida.

A sua capacidade infinita de perdoar, a sua fidelidade inabalável, a sua elegância inconteste, a sua sabedoria inalcançável, o seu misterioso existir.

Eu lhe sou profundamente grata, meu Totem.

 

Karina Silva

 

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