Quinta, 04 Fevereiro 2010 16:36

O que seu almoço tem a ver com as enchentes de São Paulo?

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          Enchentes e alagamentos em São Paulo, durante o verão, não são novidades. Já ouvimos falar nestes problemas bem antes de se começar a falar em aquecimento global. Porém, aparentemente alguma coisa mudou. E para pior.
         Em 2010, a intensidade das chuvas aumentou. Áreas que antes não eram afetadas, agora são. Regiões acostumadas a pequenos alagamentos se surpreendem com a água cobrindo as casas. Encostas relativamente seguras desmoronam com mais freqüência, devido ao encharcamento do sub-solo. O nível dos reservatórios e represas está no máximo. Os sistemas de drenagem que antes funcionavam em poucas horas após a chuva parar, agora levam dias, e isso quando drenam. Aquela conhecida chuva do final de tarde agora chega mais cedo, logo depois do almoço. Os túneis se transformam em rios, na hora da chuva e sinceramente não me lembro de tantos dias seguidos de chuva na região metropolitana, que já batem o record de 36 dias seguidos debaixo d´agua. Isso tudo deixa claro que nosso clima está mudando.
          A grande maioria dos especialistas credita esta mudança ao chamado aquecimento global que se sabe ocorre em grande parte devido às emissões dos chamados gases do efeito estufa. E o que o seu almoço tem a ver com isso? Tem a haver, pois dentre as atividades que mais emitem gases estufa está a pecuária. A criação de gado é a maior responsável pela devastação da floresta amazônica, pois se derrubam árvores e queimam florestas para a formação de pastos. Isso emite CO2 e não permite sua reabsorção. Outro motivo de invasão da floresta é a lavoura de soja, grão muito usado para fabricação de rações para o gado confinado, no Brasil e que também exportamos para o gado de outros países.
        O sistema digestivo dos ruminantes libera em grandes quantidades o gás metano na atmosfera e este gás é 20 vezes mais potente que o CO2 em termos de contribuição para o aquecimento global. Tudo isso sem falar na contaminação do solo e desperdício de água doce desta atividade. Hoje já temos no Brasil mais bois que homens e mais vacas que mulheres. Se nada for feito, em 30 anos a população humana terá se estabilizado, enquanto os pecuaristas trabalham para dobrar o número de cabeças de gado até lá. Ai já terá passado o chamado “ponto de não retorno”, e não haverá mais muita coisa a ser feita para equilibrar a vida na Terra.
        Não se têm mais dúvidas que o verdadeiro combate à degradação do nosso planeta passa pela mudança dos nossos hábitos alimentares. Tem gente que chama isso de “ A Revolução da colher”, pois a mudança começa pelo nosso prato. Para estimular a reflexão sobre deixar a carne de lado, estudos americanos com pessoas adventistas, que por motivos religiosos não se alimentam de carne, mostram que estas pessoas vivem em média 10 anos a mais e chegam a “melhor idade” bem mais saudáveis que os carnívoros.
       Voltando às chuvas de São Paulo, criticar o Prefeito Kassab, que disse a frase infeliz: “a cidade está preparada para as chuvas”, pode até ser uma atividade interessante do ponto de vista democrático, mas carece de coerência se a crítica for feita durante um almoço na churrascaria.

Publicado no Jornal Fato Paulista
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