Sexta, 19 Março 2010 13:34

Um dia triste Destaque

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O dia começou com uma lembrança que já vinha me acompanhando há uma semana: Um cachorrinho no canteiro central da Avenida Radial Leste ameaçando atravessar a via.

Eu estava parado no farol vermelho de uma travessa, e vendo os carros em alta velocidade, comecei a pedir a Deus para que não o deixasse atravessar antes de o farol fechar. Desta vez, Deus não me ouviu ou, se ouviu, não me atendeu. 

Pelo menos, ele morreu em uma fração de segundo, não chegou nem a agonizar, após colidir com um ônibus que seguiu indiferente seu trajeto.

Levei o corpo dele até minha clínica e o encaminhei para o serviço de coleta da Prefeitura. Eu não sou de fazer muitos resgates e, se nós estamos com muitos animais para adoção, o mérito ou a culpa, dependendo do ponto de vista, é da minha equipe, que está sempre se deparando com algum animal precisando de ajuda. A regra que seguimos é a seguinte: se estiver andando e não houver risco iminente de vida, nós não resgatamos.

E foi exatamente risco iminente que me fez parar o trânsito da avenida Aricanduva, pois chegando ao cruzamento com a avenida Itaquera, vejo uma cadela marrom, com cerca de 25 kg, andando cambaleante pela pista central. Um primeiro carro desviou, o segundo parou e buzinou, ela, então, andou dois metros para o lado e simplesmente se deitou no meio da pista. A lembrança do ônibus me veio à mente e eu não poderia presenciar aquilo outra vez em tão pouco tempo.

Liguei o pisca alerta, usei o cordão do meu crachá de assessor do Tripoli e passei-o pelo pescoço da cachorrinha, que me olhava com desconfiança. Pedi ao meu filho para que passasse para o banco da frente e alojei-a no banco de trás. Imediatamente ela se deitou, com jeito de quem estava muito cansada.

Cheguei à clínica e arrumamos um cantinho provisório para ela. Logo me avisaram que havia uma família de clientes me esperando. Queriam falar comigo sobre o Scoob, um cãozinho de cerca de 12 anos, mestiço de poodle com lhasa apso, que eles haviam resgatado das ruas há uns dois anos.

Há um ano atrás, descobrimos que o Scoob era paciente de um tipo de câncer chamado linfoma. Durante os últimos meses, com uso de quimioterapia, a doença havia regredido e ele passava bem. Só que nas últimas semanas ele não estava se alimentando bem e um novo check-up revelou que a doença havia se espalhado pelos órgãos internos. Com muita emoção, concordamos todos com a eutanásia.

Eu só atendo consultas na parte da manhã, mas tem dias, nos quais volto à clínica na parte da noite. A Vitória estava internada. Também, portadora de câncer maligno, havia sido operada há quatro meses atrás. Também havia sido resgatada das ruas, pela Protetora de Animais Raquel de Jesus. E também resolveu partir neste mesmo dia, perto da meia noite.

Que dia mais triste! Pelo menos o cachorrinho da Radial Leste não sofreu, e o Scoob e a Vitória saíram das ruas, receberam carinho e passaram com dignidade. Já a cachorrinha marrom, talvez mestiça de Pit Bull, que provisoriamente chamamos de Aricanduva, ainda está na clínica. Estamos melhorando as condições dela para castração e vacinação.

Agora só falta um lar de verdade!

Aricanduva e nossa colaboradora Michele

Veterinário Wilson Grassi
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