Sexta, 23 Abril 2010 17:02

Muito cachorro para pouco índio

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          A convite de duas protetoras de animais, Cida e Márcia, fui conhecer uma Aldeia Indígena situada na região do Pico do Jaraguá.
Elas já haviam me preparado, dizendo: “Dr. Wilson, a coisa lá é feia”. E eu disse: “Ok, já estou acostumado a testemunhar a triste situação dos animais em nossa sociedade”. Porém, apesar do preparo, fiquei muito impressionado.

Para começar, havia na aldeia mais cães que índios. Talvez entre 100 ou 200. Não estou contando os índios, mas sim os cães.

Não dá para saber se é uma aldeia de cães ou de índios. Índios esses que antes eram legítimos possuidores da imensa floresta tropical, e agora moram em um canil.



Triste também é a degradação cultural e tradicional desses índios. O cacique interrompeu sua conversa comigo para atender seu celular touch screen, enquanto outro índio ouvia um mp3. Da janela de vidro, aberta, de uma oca, vinha o som em alto volume de Beyoncé, e jogadas ao chão, estavam embalagens de pizza para viagem.

O que eu não vi, mas não duvido, é que o cacique tenha um Orkut e comande a tribo pelo twitter.  Minha primeira preocupação foi a de saber quem cuidava dos cães, então perguntei de quem era um cachorrinho que passava por nós. O cacique me respondeu com uma sabedoria preocupante: “Índio não tem esse negócio de ser dono. O cachorro é um cachorro e ele fica onde ele quer ficar”. “Mas e de quem eles recebem comida?” Insisti e ele respondeu: “Eles chegam perto e se o índio tiver comida, dá para eles”. Eu disse: “Ah, entendi”. Mas na verdade não entendi, pois para mais de 100 cães eu não vi nem um pote de ração, nem de água pelo meio da aldeia canil e mesmo assim todos os cães estavam vivos, e alguns até gordinhos.

Mais tarde, a Cida que me acompanhava e conhecia toda a tribo me mostrou uma oca com potes de comida e me explicou que os índios deviam ter alimentado os cães pela manhã e retirado as vasilhas. Ela mesma arrecada fundos, leva uma quantidade de ração para os cães da aldeia e deixa com alguns Índios Protetores que administram o fornecimento para os animais.


A queixa maior dos índios é que os “caras pálidas” sabedores da generosidade Guaran,i frequentemente param seus carros na calada da noite e abandonam seus melhores amigos por lá.

Já a maior queixa da protetora, é que a Prefeitura até hoje não colocou uma lombada eletrônica na estrada que divide a aldeia ao meio e carros em alta velocidade atropelam os animais e ameaçam os indiozinhos que brincam na beira da pista.

Em um ofício datado do início de 2009, a CET diz que está avaliando a questão. Como não deu mais nenhuma resposta, parece que a avaliação ainda não terminou.

 Ainda bem que existem alguns “caras pálidas”, como a Cida, que alimenta e leva os atropelados para hospitais veterinários. E ainda bem que apesar de os índios terem perdido suas terras e degradado sua cultura, mantiveram a generosidade e o respeito pela natureza, e acolhem aqueles que nós abandonamos.


Veterinário Wilson Grassi
www.wilsonveterinario.com.br
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