Sábado, 20 July 2013 03:20

Por causa de Iki

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                                              Ana Lúcia Leão

             Se hoje estou aqui ocupando este tempo, isto se deve, entre outras coisas, a Iki, meu pequeno companheiro branco, de manchas marrons, pernas traseiras um tanto tortas e olhos grandes, atentos, expressivos: quase humanos. Sim, porque minha vida tem o antes de Iki e o depois de Iki.

 Antes dele eu via, mas não enxergava as centenas de animais abandonados nas ruas, com os quais sempre cruzamos. Foi preciso que ele surgisse na esquina em frente à minha casa e por ali vagasse desde antes do Natal de 97 até o Carnaval de 98; Que de branco ficasse cinza; de manso passasse a desconfiado e mais tarde, a quase selvagem - para que eu cogitasse em recolhê-lo.

      No dia em que finalmente me decidi, soube na borracharia que a "Carrocinha" o havia levado. E no mesmo dia lá fui eu com a Diva, da Dog City, resgatá-lo. Foi ali, no Centro de Controle de Zoonoses em Santana que me deparei com uma das cenas mais chocantes que já vivenciei: cerca de 600 animais distribuídos em celas de acordo com tamanho, sexo e bairro onde foram encontrados, a latir e uivar desesperados, pressentindo o futuro próximo. Saí dali arrasada: resgatara um, um só. E os outros?     

       Passado um ano e meio, vim a conhecer Heloísa, que criou uma rede de pessoas interessadas na sorte dos animais de rua, a Rede Solidariedade Pró-Bicho, que depois adotou o nome de Companhia do Bicho. Fizemos o que nos foi possível com as poucas contribuições que contávamos e a venda de camisetas.

     E na revista e site Guia da Vila, escrevi por 10 anos o que nos preocupava além dos animais abandonados: o esclarecimento de muitos aspectos na criação de animais domésticos e sua importância em relação ao meio ambiente e aos seres humanos.

      Por causa de Iki, e depois - na Cia. do Bicho - aprendi muito sobre os animais e, por causa deles, muito também sobre a índole humana.

Ouvi, nestes quinze anos, desde que me tornei dona de alguns, centenas de casos - engraçados, tristes, trágicos, curiosos, educativos. Procurei sempre, quando foi o caso, ilustrar os tópicos que abordei com alguma dessas incontáveis histórias que ouvi ou vivi. E quando foi necessário, ouvi a palavra autorizada de veterinários que realmente se preocupam com o bem-estar dos animais.

     E compreendi muito mais, depois que passei a frequentar as reuniões do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal. Que existe um universo de sofrimento que engloba muito mais do que o dos cães e gatos: o dos animais de circo, dos zoológicos, dos rodeios, dos abatedouros, da experiência científica desumana na invenção de novos remédios e cosméticos, dos animais caçados... Descobrindo assim, chocada e triste, o lado mais torpe - e tão ignorado - da índole humana.

    Por isso digo que meu amigo Iki foi, também, o despertar de uma nova consciência para mim. Triste, porém necessária. E, por consequência, me tornei uma ativista.

                                                                                                    Ana Lúcia Leão é jornalista                                                                              

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