Sábado, 20 July 2013 03:41

A História de Tulipa

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Alguns vão me condenar pela história que vou contar, mas mesmo assim senti vontade de escrever. Nunca gostei muito de animais, mas, mesmo assim, sempre tivemos uma cachorra em casa, a Tulipa, que era do meu marido e ele a trouxe quando nos casamos. Ele sempre cuidou muito bem dela, e eu chegava até a ter um pouco de ciúmes, e algumas vezes cheguei a maltratá-la.

Quando engravidei, comecei a achá-la ainda mais insuportável, seu latido, suas brincadeiras e sua simples presença me incomodava. Eu gritava o dia inteiro com ela, a enxotando para fora. Ela apenas abaixava os olhos e ia para longe de mim. Ricardo, meu marido, não entendia o porquê de tudo isso e sempre acabávamos discutindo. Eu também não entendia tanto, mas desde pequena, presenciei meus pais jogarem água e espantar os animais que chegavam próximos de nosso portão, então talvez eu tenha herdado isso.

Tive o bebê, e minha relação com Tulipa não melhorou. E conforme foi crescendo, meu filho Pedro Henrique, assim como pai, apaixonou-se por ela. Brincavam o tempo todo, o que me deixava ainda mais enciumada.

Um dia eu disse a Ricardo que ele teria que escolher entre eu e ela. Ele sorriu  e disse que não tinha que escolher nada, pois eram amores totalmente diferentes e será que eu não enxergava o bem que tulipa fazia ao nosso filho? Fique calada, e ele me abraçou e me beijou na testa. No dia seguinte, acordei decida a desaparecer com Tulipa. Abri o portão de casa e tentava pegá-la para colocar no carro e levá-la para longe. Apesar de seus quase 15 anos, ela corria e eu não conseguia alcançá-la.

Enquanto tentava capturar Tulipa, não percebi que meu filho, agora com 5 anos, saía pelo portão e ia em direção à rua. Não me lembro direito como aconteceu, pois foi muito rápido. Em uma fração de segundo, Tulipa me driblou e correu em direção ao portão e saiu. Olhei e percebi que meu filho atravessava a rua. Tulipa correu em direção a ele e se jogou em cima do meu filho e eu pensei que para machucá-lo para se vingar de mim. Mas, assim que meu filho caiu deitado no chão, uma moto atingiu Tulipa em cheio. E ela caiu desmaiada e ensanguentada.

Fiquei estupefata, e não conseguia sair do lugar. O motoqueiro desesperado, parou a moto, desceu e correu na direção do meu filho, levantou-o do chão e viu que ele estava bem. Então, correu na direção da cachorra e gritou para mim: “Moça, pelo amor de Deus, tire o carro, temos que levá-la ao veterinário. Ela tá viva!” Meu filho, já de pé, correu na direção de Tulipa e começou acariciá-la e chorando, disse: “Salva ela moço, ela é minha irmãzinha!”.

Eu ainda extasiada, tirei o carro da garagem. O motoqueiro colocou Tulipa no carro e me seguiu de moto até o veterinário. Tulipa foi atendida. Passou por uma cirurgia e perdeu o movimento das patas traseiras. Eu nunca me perdoei pelo que fiz a este pobre animal, enquanto ela só nos deu amor e ainda por cima salvou a vida do meu pequeno. Em momento algum me hostilizou, mesmo com toda a minha ruindade.

Ricardo, mesmo após 3 anos do acontecido ainda guarda magoas de mim. Tulipa, hoje tem 18 anos, está velhinha, e por causa do acidente anda em uma cadeirinha de rodas. Tento dar a ela todo o amor que não dei durante todo o tempo que vivemos juntas, para tentar recompensá-la e talvez tirar o grande peso que permanece em minha consciência. E ela, por incrível que pareça, me perdoou, me trata bem e me acaricia toda vez que me aproximo. E é o que mais me dói.

Ana Beatriz Pereira

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