Quinta, 15 September 2011 17:24

Plácido e o gato do cemitério

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Plácido estava de licença médica. Como professor da rede pública, tem o lado ruim que é ganhar pouco, mas ao menos tem estabilidade no emprego, e tem direito de ficar doente e se recuperar tranquilo em casa, coisa que funcionário de empresa nem sempre tem.

Porém, a tranquilidade de Plácido durou pouco, pois logo ouviu os gritos da Deinha, sua amiga, que chegava esbaforida, com suas bochechas rosadas:

- Seu Plácido, Seu Plácido, tá em casa? Gritou do portão, com esperança de encontrar o professor.

- Mas o que foi agora, Deinha? Não posso nem descansar em paz?

- Ué, não foi trabalhar não? – Assuntou-se.

- Estou gripado, o médico me deu uma licença. – Explicou Plácido, enquanto assoprava o nariz inchado.

- Ah, e a gente quando fica gripado não trabalha? Eu mesma to gripada e já lavei dois tanques de roupa, e na água gelada, no muque. – Gabou-se Deinha, mostrando os braços roliços.

- Pois não devia, assim sua gripe pode piorar. E no meu caso, trabalho com crianças. Poderia contaminá-las todas, com este vírus, por isso o médico me dispensou. De qualquer forma, você não veio aqui saber da minha gripe. O que é que foi? Só pode ser coisa de bicho.

- Pois é. O Sr. nem imagina a barbaridade. Viram um gato preto, enorme, mais parecia um cachorro. Estava com a boca toda costurada. Não podia nem abrir. Sabe onde? Lá no cemitério. Uma judiação. Sabe como é né? Sexta–feira, mês de agosto, gato preto...

- Mas quem foi que viu isso? - Questionou o protetor de animais, já indignado.

- Foi a vizinha da prima da cunhada da Joice, que é amiga da tia da Tereza, que trabalha de manicure no salão da Dona Pérola. Pessoa de muita confiança, que não iria inventar uma coisa destas. O senhor precisa fazer alguma coisa.

- Tá bom, tá bom, já entendi. Vou me trocar em um minuto e vamos para lá. Para socorrer bicho não tem gripe que impeça. – disse enquanto entrava em casa apressado.

Pouco tempo depois, os dois protetores já atravessavam os portões do cemitério e começavam a investigação interrogando um coveiro, o Seu Romildo.

- O senhor tem notícias de um gato abandonado aqui no cemitério? –perguntaram após se apresentarem.

- Óia, seu moço. Gato aqui é qui num farta não. Tem bastanti. Eles mora nas campa, junto dos difunto. – Explicou o coveiro, que ao sorrir mostrava ter apenas os dentes caninos superiores, e um bom espaço vazio entre eles.

- E quem dá comida e água para eles?

- Tem sempre alguma sinhora qui vem cuidá. Se oceis quizé, por vinte real eu mostro onde eles fica. Mostro todas as campa, ou quase todas. Só não vou perto da campa da Dona Alzira, pois é assombrada.

- Assombrada por quê? – perguntaram curiosos.

- É que ela morreu de fato furmigante.

- Credo, que morte horrível. Foi comida viva pelas formigas. – Lamentou Deinha enquanto fazia o sinal da cruz três vezes para se benzer.

- Não sinhora. Num tem nada com furmiga não. Fato furmigante é quando o coração para di batê di repenti e a pessoa num tem tempo di si prepará prá morrê i fica penando. Da campa dela sempri sai uns baruio isquisito, por isso lá eu num levo oceis não. – Explicou preocupado o coveiro.

Plácido então abriu a carteira e o único dinheiro que tinha eram exatos vinte reais que a sua mãe, Dona Wanda, havia dado para ele comprar pão e café, para o lanche da tarde. Lamentou o desvio da verba, mas seria por uma causa justa, e passou a nota para o Seu Romildo que imediatamente a amassou e enfiou no bolso do macacão, dando um leve sorriso com os caninos remanescentes.

Foram horas e horas de buscas ao gato preto da boca costurada. Em diversas campas danificadas, que o Sr Romildo abria, encontravam gatos. Alguns fugiam em disparada. Outros fraquinhos, magrinhos, com os olhos remelando, eram capturados e colocados em caixas de transporte. Vários filhotes foram resgatados. Uma gata havia dado cria dentro de um ossário, e os filhotinhos se escondiam por baixo dos ossos. Com todo respeito possível, Deinha levantou um crânio humano para capturar um gatinho que estava encolhido por debaixo. Depois fez o sinal da cruz três vezes para se benzer.

- Deinha, desisto. Passamos a tarde toda aqui e nada do gato preto. – Disse o professor já entregando os pontos.

- Em compensação, já pegamos mais de 18 gatinhos doentes. Todos gripados, com os olhos e o focinho escorrendo. – Contabilizou Deinha.

- É, vamos ter que levar direto no veterinário. Melhorar a saúde deles primeiro, antes de castrar e doar os filhotes. Os poucos adultos, se forem bravos, talvez tenhamos até mesmo que soltar aqui de novo, depois de tratar deles. – Considerou Plácido.

- Tá certo, mas antes da gente desistir, vamos dar agora uma olhada no alto destas árvores, pois tem gato que fica no alto, o senhor sabe, não é?

- Sei sim, mas depois vamos embora, pois até o coveiro já nos abandonou aqui sozinhos.

Deinha foi então mirando no alto das árvores e apertando os olhos, pois já era final de tarde e o sol bem no horizonte dificultava sua visão.

- Não dá para ver direito daqui. O sol atrapalha. – Foi dizendo enquanto dava uns passos para trás em busca de uma visão melhor. Concentrada em distinguir algum vulto nos galhos altos de uma mangueira, Deinha foi dando passos para trás até que ouviu um estralo e o chão se abriu aos seus pés. A tampa de cimento de uma campa não aguentou seu peso, desabou e a moça caiu dentro da cova e desapareceu.

Plácido que estava por perto mirou os olhos na lápide e leu o nome da pessoa falecida: Alzira.

- Deinha, você caiu no túmulo da Dona Alzira. – Gritou enquanto depositava no chão com cuidado as caixas de transporte cheias de gato, que carregava nas duas mãos, e só então correu para socorrer a amiga.

No instante seguinte, ouviu um esguiço, um rosnado de gato bravo e então, de um pulo só, como se fosse uma atleta, saiu da cova Deinha, pálida, correndo como uma louca, em direção a saída do cemitério, fazendo sem parar o sinal da cruz. Atrás de Deinha saiu da cova da Dona Alzira um gato preto, enorme, que correu alguns metros e voltou. Olhou para Plácido e rosnou, mostrando todos os dentes brancos, depois entrou novamente em seu esconderijo.

Um bom tempo depois Plácido encontrou Deínha, que já havia passado na igreja e rezado pela alma da senhora falecida de infarto fulminante e para garantir ainda ia dar um pulo em um terreiro e providenciar um despacho encaminhador.

- É Deinha, eu sei que você passou um susto, mas ao menos deu para ver que o gato preto estava bem e não tinha a boca costurada. Foi alarme falso. – Sorriu o professor.

- É Seu Plácido, tá achando graça porque não caiu dentro da cova como eu. – Falou e fez o sinal da cruz três vezes. - E ainda ganhamos vários gatos gripados, como o senhor. Quantos dias ainda tem de licença médica? Vamos aproveitar e pedir para o veterinário tratar dos gatos e do senhor também. – e os protetores de animais riram juntos enquanto voltavam para suas casas carregando as caixas de transporte cheias de gatinhos gripados.

 Veterinário Wilson Grassi

 

 

 

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