Terça, 24 April 2012 19:39

Os Veterinários e a Síndrome de Burn Out

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Descrita pela primeira vez por Freudenberg, em 1974, a Síndrome de Burnout é considerada um transtorno psicológico que predomina em profissionais da área da Saúde, que se expõem na vida profissional, a um contato interpessoal intenso, que pode levar a uma exaustão física e emocional.

O nome vem do inglês, burn (queimar) e out (fora) e está diretamente ligada á pressão originada no trabalho, por isso também é conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional.  Irritação, depressão, frustração e ansiedade são alguns dos sentimentos que perturbam as pessoas acometidas pelo Burnout no começo da doença e podem se desdobrar em desinteresse e apatia ao final. Não é privilégio dos veterinários, mas se você é desta classe provavelmente você já se sentiu assim, ou conhece um veterinário meio estranho assim.

O motivo? São muitas as situações estressantes presentes no dia a dia, principalmente do clínico. Começando pela jornada de trabalho. Se quiser ganhar um salário razoável vai precisar encarar no mínimo 12 horas de trabalho por dia, e 7 dias por semana. Todos sabem que são os sábados, domingos e feriados os dias onde se trabalha mais. Na verdade não há hora para sair, pois parece que os casos mais graves e as emergências preferem chegar ao final do expediente. E férias? Nem pensar, pois significam um mês sem remuneração.

Amigos? Geralmente só dá tempo de tê-los no trabalho. Uma conhecida minha costuma dizer que em festa de arquitetos, estão todos descansados, bem vestidos e limpos. Já em festa de veterinários, chegamos atrasados, com os cabelos desalinhados e a roupa branca que não deu tempo de trocar.

E a família? Sempre em segundo plano e a esperar. Qual veterinário responsável, que nunca ficou dividido entre uma hemorragia que não cessava e a festa de aniversário do filho, e óbvio, optou por ficar com o paciente?  

Qual destes profissionais nunca explodiu com um funcionário da clínica ou mesmo com um cliente, e depois não ficou se sentindo um idiota por ter agido assim?

Uma das maiores frustrações deve ser perder um paciente sem fechar um diagnóstico preciso, mesmo tendo realizado diversos exames. Ou se deparar com um animal novo, mas cujo rim não quer mais filtrar e que vai derrubar todos os outros órgãos até a morte, ou ainda com um câncer disseminado, e saber que você é impotente para extirpá-lo, mesmo depois de ter feito tantos cursos sobre o assunto, pós-graduação, incontáveis seminários e congressos para se atualizar.

Qual veterinário não gostaria que em certas ocasiões seus pacientes fossem sozinhos procurá-los, e que fosse frequente que os responsáveis por eles pudessem acertar as despesas do melhor tratamento possível, sem restringir os exames nem os procedimentos necessários.  Quem de fato não gostaria de poder trabalhar sem precisar cobrar honorários? Isso seria ótimo, principalmente se os cheques nunca voltassem, se as contas não insistissem em renascer a cada mês, e se o estoque de medicamentos não findasse com uma velocidade impressionante.

Qual veterinário já não teve dias onde não queria sair da cama, apesar de ter dormido muito mal, mas ao lembrar-se das cirurgias marcadas e do carnê do carro financiado em 48 vezes, que comprou justamente para poder trabalhar, juntou as forças que sobraram, levantou da cama como um pugilista nocauteado tenta levantar do chão do ringe, lavou o rosto, vestiu um jaleco branco, engoliu um café preto, e seguiu para a clínica, torcendo para que um dia tudo isso faça algum sentido.

 Veterinário Wilson Grassi

 

 

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