Sexta, 06 February 2015 00:00

Presente de Natal

Avalie este item
(0 votos)

-Querido Papai Noel, me comportei bem e obedeci a Mamãe o ano todo, por isso mereço ganhar a boneca Barbie Veterinária de presente de Natal. Assinado Mariana, de 9 anos.

Após colocar o ponto final na frase e desenhar um coração em cada canto da folha, a menina dobrou cuidadosamente a folha de papel de carta, colocou-a dentro de um envelope vermelho e ajeitou a correspondência aos pés da árvore de Natal. Saiu da sala e foi cuidar da vida.

Imediatamente, Faísca, um filhote de cachorro legítimo vira-latas, último presente recém dado à Mariana, entrou na sala à procura de alguma coisa para fazer e encontrou o envelope vermelho. Em apenas alguns segundos picou a carta em dezenas de pedaços.

Alguns pedacinhos ficaram até grudados no canto da boca e no focinho. Não dava nem para negar. Provas demais o incriminavam.

Mariana, ao ver a cena, ficou furiosa.

- Cachorro mal. Eu te odeio! Agora o Papai Noel não vai receber a carta e eu não vou ganhar a Barbie Veterinária. Suma daqui! Não quero ver você nunca mais!

Cabisbaixo, Faísca entendeu o recado. Enfiou o rabo entre as pernas e desapareceu. Atendeu o pedido da menina e sumiu.

Horas depois, já passada a raiva, Mariana deu falta do filhote. Procurou pela casa toda e nada. Com ajuda dos Pais, percorreu a vizinhança e nada. Esperou o dia seguinte e nada.


***


Chegou a noite de Natal, festa na casa da Mariana, e hora de abrir os presentes. Mesmo sem receber a carta, o Papai Noel ficou sabendo do desejo da garotinha e deixou uma linda Barbie em baixo da árvore.

Ao ver a boneca Mariana chorou. Lembrou do Faísca e de como havia sido rude com ele. Lembrou dos bons momentos que tiveram juntos, de como brincaram, correram e apreenderam um com o outro, nas poucas semanas que tiveram de amizade.

O arrependimento doeu demais. Mariana não podia nem olhar para boneca, sem cair no choro.

Já tarde da noite, já com a família toda distraída, comendo, bebendo e conversando alto, a garotinha resolveu se livrar do brinquedo. Agasalhou-se e sorrateiramente saiu de casa. Levava um panetone em uma mão e a boneca na outra, disposta a se livrar do brinquedo. Andou por 3 quadras até um viaduto, onde sabia que embaixo morava uma família de moradores de rua. Sabia que tinham uma menina. A garotinha se apresentou a família, desejou feliz Natal e entregou a boneca para a outra criança, que agradeceu com um largo sorriso.

Mariana virou as costas e começou a voltar para casa, quando ouviu um latido, vindo de dentro de um carrinho de catador de lixo. Entre as folhas de jornal velho e pedaços de papelão surgiu um focinho conhecido. Sim era ele, o Faísca, que pulou do carrinho e correu de encontro a Mariana.

Após muitos beijos, abraços e lambidas, foram interrompidos pelo catador de papelão.

-Ei, esse cachorro é meu, menininha.

Após se recuperar do susto, a garota tentou argumentar e até ofereceu dinheiro, em troca do Faísca.

-Escute aqui, mocinha. Não quero seu dinheiro não. Quero uma promessa. Vai ter que cuidar deste cachorro com muito carinho e de hoje em diante medir bem o que fala. Palavras ásperas são como pregos cravados em uma madeira. Você pode até retirar os pregos, como pode se desculpar pelas palavras, mas as marcas ficam para sempre.

Dito isso, o catador de papelão fez um carinho no cachorro, que retribuiu com uma lambida. Apanhou o Pantone e se retirou para um canto do viaduto, perto da fogueira, onde se pôs a comer o pão.

Mariana apertou o Faísca contra o peito e tomou o caminho de casa, lembrando das palavras do homem, e sabendo que este Natal seria inesquecível.

Lido 607 vezes