Sexta, 06 February 2015 00:00

Fragmentos de uma conversa entre um cachorro velho e uma mulher de 40 anos

Avalie este item
(4 votos)

A manhã estava ensolarada, com uma brisa fria, típica de uma manhã de inverno. Ainda era cedo e poucas pessoas passeavam pelo parque. Mari carregava Bingo no colo e não teve dificuldade em encontrar um banco vazio, bem em frente ao lago. Deitou delicadamente Bingo no banco para em seguida ajeitar uma manta sobre a grama verde. Passou Bingo para a cama improvisada e sentou-se no banco com o cachorro aos seus pés. Bingo por uns momentos respirou de boca aberta, pois se cansava fácil, do alto dos seus quase 20 anos. Quando se recuperou, começaram a conversar:

- Bingo, ando preocupada com você. – Começou a mulher.

- Por que? Estou bem. – disse o cãozinho sorrindo.

- Fico pensando... Você não anda mais sozinho. Só fica deitado. Tenho medo que esteja sofrendo.

- Eu estou bem. Tenho tudo que preciso para ser feliz. Sua companhia, seu carinho e sachês sortidos para comer. Além disso, quando você me ajuda a ficar de pé, segurando meu rabo, consigo dar uns passinhos.

- Eu gostaria de poder fazer mais. Ficar mais tempo com você. Cuidar melhor e conversar mais, como sempre fizemos quando eu trabalhava menos – Disse a mulher.

- Eu também gostaria de ficar mais tempo com você, mas sei que você é uma mulher que trabalha muito. Que tem uma vida profissional intensa. Eu entendo isso. Para mim o importante é que todo dia você volta para casa, me faz um carinho, senta no sofá comigo aos seus pés, e então posso ficar te olhando. Isso para mim é a felicidade. Ficar perto de você para mim é a melhor coisa do mundo. – Disse o cão velhinho.

- Ah Bingo, só você para gostar de mim deste jeito.

- Eu e o Betinho. – sorriu o cão. – Você deveria ter casado com ele.

- Será Bingo? Ele era muito bonzinho mesmo. Mas você sabe, que eu não gostava dele o suficiente para casar. – justificou Mari.

- Eu gostava. Ele trazia sempre um presente para você. Conversava comigo, me deu vários banhos e ainda passava talco na minha barriga. – lembrou-se Bingo. –Definitivamente o Betinho seria um bom dono para mim e um bom marido para você. Eu poderia morrer mais tranquilo sabendo que teria alguém para cuidar de você.

- Para com isso, hein Bingo. Você ainda tem muito tempo pela frente.

- Pode ser que eu tenha. Para nós cães, o tempo passa diferente. Um dia vale por sete seus. Uma semana vale quase dois meses e um ano dos humanos para nós é quase uma década. Por isso cada minuto com você vale muito para mim. - regozijou-se o cachorro.

- Bingo, queria ser feliz como você. - lamentou-se Mari. – Você se contenta com coisas simples.

- Ou é você que não se contenta com nada e quer sempre mais? – Perguntou Bingo. – Por que você precisa ganhar tanto dinheiro? Não é casada nem tem filhos?

- Não sei. Talvez eu precise provar para alguém que eu tenho valor. Ou talvez precise provar isso para mim mesma. Ou para meus falecidos pais. Felizes os cães, que não precisam provar nada para ninguém.

- Eu já provei tudo que precisava. - disse Bingo – e o que mais gostei foram os saches sortidos – brincou sorrindo a cãozinho. Voltando ao assunto, tem alguma chance de você reconsiderar e casar com o Betinho?

- Claro que não, Bingo! E, além disso, você sabe que eu gosto do Valter.

- Pois eu não gosto. Ele não gosta de animais, não conversa comigo nem muito menos passa talco na minha barriga. E, além disso, você sabe que ele é casado. E tem mais, ele não gosta de mim nem de você de verdade. - resmungou o cão.

- Ele é um idiota por não gostar de você, Bingo!-

- Ele é um idiota por não gostar de você, Mari! - ambos se olharam e sorriram um para o outro.

- Bingo, a conversa está boa, mas precisamos ir. Hoje você ainda tem sessão de fisioterapia e depois banho. E eu tenho que terminar uns relatórios da empresa. – disse Mari, enquanto ajeitava Bingo nas cobertas e o erguia no colo.

- Depois do banho, você passa talco na minha barriga?

- Claro, meu amor!

Mari apertou Bingo nos braços e encostou seu rosto no dele. Bingo arfou um pouco para recuperar o ar e seguiram em frente, caminhando pelo parque de volta para casa, pensando em suas vidas e na felicidade de terem um ao outro.

Lido 666 vezes