Quarta, 18 May 2011 14:06

Seriedade e respeito aos cadáveres de animais em aulas práticas

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Tenho observado com satisfação a conduta dos alunos do curso de pós-graduação em cirurgia de tecidos moles da Anclivepa-SP, especialmente no que se refere ao respeito com que tratam os cadáveres de animais utilizados nas aulas práticas.

Nada de brincadeiras ou chacotas. Isso é muito alentador e aponta para uma luz no fim do túnel, com parte da classe veterinária finalmente formando na linha de frente, junto a outros segmentos da sociedade, que buscam cada vez mais uma situação de verdadeiro respeito aos animais, ao invés da condição imposta de propriedade. 

Com exceção dos coordenadores de curso, talvez poucos se preocupem ou conheçam a origem destes corpos, que têm importância fundamental no treinamento dos profissionais, em técnicas cirúrgicas, que amanhã estarão salvando vidas. E é justamente esta origem que nos obriga a assumir uma postura de gratidão durante nosso treinamento. São diversos cadáveres por aula, e diversas aulas por ano. Portanto muitos animais.

Cada um com uma história diferente, um biotipo diferente e cada um já teve um nome diferente. Muitos Bobs, muitos Rex e muitas Laikas, hoje são apenas cadáveres frios e provavelmente apenas matéria. Contudo é factível supor que a maior parte deles no passado teve sorte de ter uma família, de brincar com uma criança, de passear na coleira e receber carinho do seu dono.  Porém também é factível supor que muitos deles se perderam das suas famílias ou, o que é pior, foram abandonados.

Talvez o Rex, que não era castrado, tenha fugido de casa para namorar e se perdeu. Talvez o Bob tenha crescido demais, ficado bravo, dava muito trabalho e tenha sido largado longe de casa. E a Laika, que teve tumor na mama, tenha sido sacrificada junto com os outros, em algum canil municipal terceirizado, do interior do Estado. Outros animais, com outros nomes, talvez tenham vivido uma história melhor. Tenham recebido tratamento veterinário adequado e conforto até o dia em que faleceram e foram entregues a ciência por seus familiares, que compreenderam a importância do treinamento cirúrgico em cadáveres, que substitui em todos os cursos de bom senso o ensino das técnicas em animais vivos, sempre que isso é possível.

Hoje talvez sejam apenas matéria, mas já tiveram vida. Se foi boa ou ruim, não sabemos, e podem  agora mortos, estar servindo de suporte para o ensino de técnicas cirúrgicas que teriam salvado suas vidas caso tivessem acesso a elas no passado recente.

Por esta e por outras merecem e recebem todo nosso respeito. E para quem acredita, quem sabe vale até uma oração, pedindo a Deus que sejam conduzidos por Ele, em seus processos evolutivos, se é que isso realmente existe, para eles e para nós.


Veterinário Wilson Grassi

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