Sexta, 29 July 2011 02:20

A nova pandemia e a criação industrial de animais

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Nem guerras, nem violência urbana. A próxima grande ameaça à nossa sociedade parece vir da criação e abate intensivos de animais usados para o consumo, associado às condições insalubres dos trabalhadores dessas atividades. É a previsão de infectologistas que estudaram as últimas grandes epidemias: Sars, Gripe Aviária e Gripe Suína.


A Sars, sigla de Síndrome Respiratória Aguda Severa, surgiu no ano de 2003. Foi causada por um coronavírus e ficou marcada pela alta mortalidade, especialmente entre profissionais da área da saúde. A origem da epidemia foi na China, e o reservatório do vírus, foi o Civeta, ou Gato Almiscarado. Este animal convivia em equilíbrio com o vírus na natureza, porém os Gatos Almiscarados começaram a ser caçados, confinados em gaiolas superlotadas, transportados por grandes distâncias até mercados e fundos de restaurantes no interior da China, onde esperavam o abate ao lado de outras espécies, como macacos e cobras. Ao serem escolhidos como refeição, eram apanhados pelos próprios cozinheiros e provavelmente defecavam, urinavam e arranhavam os cozinheiros na hora do abate, lutando em vão pela vida.



A debilidade dos animais estressados pelo confinamento, sede e fome, a falta de condições higiênicas dos restaurantes, a proximidade com outras espécies selvagens, também doentes, e os ferimentos nos cozinheiros permitiram que o vírus da Sars passasse do animal para o homem. O cozinheiro morreu de insuficiência respiratória, mas antes transmitiu o vírus para alguns clientes do restaurante, que sucessivamente o passaram para frente.

O governo chinês demorou a informar a OMS (Organização Mundial de Saúde), o que possibilitou ao vírus chegar a outros países e fazer centenas de vítimas, antes da epidemia ser controlada e o vírus desaparecer.

Com a gripe aviária, foi parecido, só que o vírus foi um conhecido, o Influenza, antes restrito às aves aquáticas, que ao que tudo indica, ao sobrevoarem as grandes criações intensivas de aves na Ásia, descarregaram o vírus, que no solo encontrou animais deprimidos, se disseminou e ganhou a capacidade de contaminar pessoas. A gripe aviária teve também alta taxa de mortalidade, porém, por sorte, a transmissão aconteceu apenas de ave para ave, ou de ave para homem, e não de homem para o homem, o que teria sido devastador.

Mais recentemente a grande epidemia, ou melhor, pandemia, pois teve proporções mundiais, foi a gripe suína, chamada de H1N1, em referência as moléculas hemaglutinina e neuraminidase, presentes na superfície do vírus e responsáveis por reconhecerem as células dos animais para aderi-las.

Novamente um Influenza vindo das aves encontrou um terreno fértil para evoluir e se recombinar. Grandes criações de porcos no México. Muitos animais concentrados, doentes e estressados, sem muita resistência ao vírus. Para piorar, estes animais eram criados e abatidos por trabalhadores doentes. Humanos muito pobres, sem saneamento básico, nem assistência médica, e normalmente cheios de ferimentos no corpo relacionados ao trabalho na criação e no abate dos porcos. Daí para se contaminarem foi um passo.

A gripe suína tomou proporções de pandemia devido a alta morbidade. O vírus já era eliminado e contaminava outras pessoas antes mesmo do doente apresentar os primeiros sintomas. Em relação à Sars e a Gripe Aviária, a Gripe Suína teve menor mortalidade, mas mesmo assim mais de 0,1% dos acometidos faleceu, especialmente as gestantes. Foram milhares de vítimas fatais.

Os porcos aglomerados são os grandes “recombinadores” virais dos vários tipos de Influenza, e deram origem assim ao vírus H3N2, responsável pela pandemia de Hong-Kong de 1968. Este vírus permaneceu no homem e até hoje retorna em todos os invernos ocasionando gripes.

O maior temor dos pesquisadores hoje é que uma provável nova pandemia seja a combinação do vírus da gripe aviária, de alta mortalidade, com o vírus da gripe suína, de alta morbidade, o que produziria uma doença que contaminaria muito e mataria muito. Com a globalização, viagens aéreas e comércio internacional intenso, atingiria todos os continentes em questão de semanas. Em tese todos os ingredientes necessários à tragédia estão à disposição: reservatórios do influenza nas aves, criações de aves e porcos superlotadas e sujas, com animais debilitados, doentes e estressados e trabalhadores humildes, que se sujeitam à condições insalubres nas criações e frigoríficos.

Para surgir um novo e perigoso vírus, basta que um porco, suscetível aos vírus da gripe suína e aviária, contraia as duas doenças ao mesmo tempo e os vírus se recombinem. Nada  muito difícil e talvez seja apenas uma questão de tempo.

Veterinário Wilson Grassi

Baseado no livro Pandemias, de Stefan Cunha Ujvari, Editora Contexto

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