Terça, 16 August 2011 15:57

Plácido e a família do pastel

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Naquela manhã, Plácido acordou aborrecido. Os problemas se misturavam em sua mente. Por um lado, estava angustiado, pois havia dado uma prova na escola e o desempenho dos seus alunos tinha sido sofrível, pois por mais que ele se esforçasse como professor, parece que não aprendiam nada. Se ele fosse rigoroso nas correções, quase todos os alunos seriam reprovados. Se fosse complacente, passariam, mas sem saber nada da matéria. Ainda estava por se decidir quanto ao que fazer sobre isso. Por outro lado sua cabeça também estava ocupada, mas desta vez não encontrava saída.

Meses atrás havia resgatado das ruas uma família canina. mãe, pai e filho e filha. Um senhor havia se mudado e simplesmente deixado os animais sozinhos na casa. Sem água nem comida. Fato infelizmente não raro. Os vizinhos vendo a situação abriram os portões da casa e alimentaram os animais, que mesmo com os portões abertos não foram embora.

Plácido, conhecido pelo coração mole, foi logo chamado. Providenciou veterinário, vacinas, castrações e conseguiu um local provisório para os cães ficarem, enquanto buscava adotantes. O lar provisório era um quintalzinho, nos fundos da pastelaria do Seu Zé, na vila onde mora. Todos os dias, Dona Deínha, amiga de Plácido e parceira de proteção animal e Dona Wanda, sua mãe, se revezavam com o professor na tarefa de cuidar dos animais.

Ao aparecerem as primeiras chances de doar os bichos, um drama se abateu sobre eles.

- Estes animais perderam tudo que tinham. A família que conheciam, fosse boa ou ruim com eles. A casa onde moravam e estavam acostumados. Agora só têm uns aos outros, e ainda vamos separá-los? Questionou Deinha.

-Mas não tem outro jeito, nunca vamos conseguir doar os quatro juntos. – Ponderou Plácido, mas já ficando com peso na consciência.

Pai, mãe e filhos estavam sempre perto uns dos outros. O filho era o fucinho do pai. A filha, as pintas da mãe. Os filhos comiam primeiro, só depois os pais se serviam da ração. Quando dormiam, também se encostavam e ficavam bem juntinhos. Sabiam que eram uma família e curtiam isso. Porém também gostavam dos seus protetores e os enchiam de lambidas, durantes as visitas.

Enquanto criavam coragem para separá-los, foram empurrando com a barriga as adoções.

E assim se passaram vários meses, os animais engordaram, ficaram mais bonitos, pelos brilhantes e viviam felizes. O Seu Zé recebia uma ajudinha mensal pelo aluguel do quintalzinho, verba que era patrocinada pela Mônica, empresária de sucesso, que financiava alguns resgates do Plácido e sua turma.

Tudo ia bem até que este dia em que Plácido acordou aborrecido com os alunos e com o Seu Zé.  A pastelaria fora vendida. Seu Zé iria voltar para Minas Gerais, sua terra natal, e o novo proprietário não queria mais a “família do pastel”, apelido carinhoso que os caninos haviam ganhado. As negociações anteriores haviam fracassado, nem um aumentozinho no aluguel convenceu o comprador a manter os animais por lá. Nenhum outro local apropriado foi encontrado, que tivesse espaço e condições para quatro cães de tamanho médio e não viam alternativa além de separá-los e mandar um para cada lado.

O dia fatídico havia chegado e agora estavam todos lá para os transportes. Plácido, Dona Wanda, Deínha e Mônica.  O Professor abraçava os animais de um em um, emocionado, tentando explicar aos cães o que estava acontecendo e porque estavam sendo separados. Tentando, porque suas palavras saiam apertadas, chorosas, e qualquer comunicação só poderia mesmo acontecer pela emoção, pois nem outras pessoas poderiam entender o que ele balbuciava. Talvez nesta hora estivesse misturando seus sentimentos e traumas de infância com a situação presente dos peludos.

Enquanto os animais eram embarcados nas caixas de transporte, Mônica fora cobrada pelo novo proprietário sobre os poucos dias de aluguel do quintal desde que este havia comprado o comércio.

-Olha moça, vou cobrar sim, afinal negócio é negócio, e a senhora me deve uma semana de aluguel.

Mônica triste e indignada ao mesmo tempo, pela insensibilidade do comerciante num momento tão difícil para eles, pegou o talão de cheques e foi bufando para dentro da pastelaria fazer o acerto a portas fechadas, enquanto os outros esperavam com os animais nas caixas de transporte, perto dos carros.

- Gente, desculpa, vocês sabem que eu gosto de cachorro, mas já trabalhei muito aqui nesta cidade, tá na hora de voltar para Minas, descansar um pouco. – justificava-se Seu Zé, pasteleiro agora aposentado.

- Nós o entendemos. O senhor até que nos ajudou muito, deixando a família aqui tanto tempo. – Agradeceu o professor.

Após 30 minutos de espera, os protetores já estavam preocupados com a demora da Mônica, apenas para preencher um cheque.

- Será que eles estão brigando? – Disse Deínha, já pensando no pior.

- Do jeito que ela é esquentada, não duvido. Deve estar falando um monte para ele. - Concordou Dona Wanda.

Já Plácido não falou mais nada, apenas abraçava os bichos em silêncio e de vez em quando enxugava as lágrimas, até o momento em que Mônica saiu com passos firmes de dentro do salão.

- Descarreguem os animais. - Ordenou a empresária. – Ninguém vai mais embora.  Acabamos de comprar este ponto comercial. Agora além de protetores somos também pasteleiros. Wanda, você que passa o dia na cozinha mesmo, pode fritar os pasteis. Deínha, que é faladeira, pode servir as mesas e fazer a propaganda boca a boca, e o Plácido, nos fins de semana também pode ajudar. Quem sabe ganhamos um dinheirinho para ajudar nas despesas que temos com tantos resgates.

A turma estupefada não acreditou, até ver o vendedor, sorrindo, com um belo cheque especial nas mãos.

Imediatamente se abraçaram e pularam de alegria, até o Seu Zé comemorou.

- Vou dar todas as dicas para vocês terem sucesso aqui. Fico muito feliz. – comemorou o aposentado.

Os animais foram imediatamente desembarcados das caixas de transporte e foram deitar juntinhos, onde estavam acostumados.

A família do pastel iria continuar junta, Plácido e os outros protetores se sentiam muito melhor, com o coração desafogado, e no dia seguinte, todos os alunos foram aprovados, mesmo sem saber muita coisa.

Veterinário Wilson Grassi

 

 

 

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